Dentes do siso guardam células-tronco capazes de formar neurônios e regenerar tecidos
Estudo revela potencial terapêutico de estruturas extraídas por rotina e aponta que polpa dentária pode ajudar a tratar doenças cardíacas, lesões cerebrais e até recuperar cartilagens
Antes considerados apenas “incomodativos”, os dentes do siso podem se tornar protagonistas em uma nova era da medicina regenerativa. Cientistas da Universidade do País Basco, na Espanha, descobriram que a polpa interna desses dentes contém células-tronco com potencial para formar neurônios, ossos e até tecido cardíaco.
Essas células, obtidas da parte interna mole dos dentes — chamada de polpa dentária — demonstraram capacidade de se transformar em diversos tipos celulares, incluindo estruturas semelhantes a neurônios com atividade elétrica compatível com os circuitos cerebrais humanos. O estudo foi liderado pelo professor Gaskon Ibarretxe, especialista em biologia celular e histologia.
Neurônios, colágeno e tecido cardíaco: um arsenal regenerativo
Entre os achados mais impressionantes está a habilidade dessas células de estimular melhorias na função cardíaca, comprovada em testes com camundongos com insuficiência cardíaca. Em laboratório, também demonstraram aptidão para produzir camadas organizadas de colágeno e cálcio, o que as torna candidatas promissoras para regeneração de cartilagem articular — condição comum em pacientes com doenças ortopédicas ou atletas lesionados.
“Elas apresentam vantagens em relação a outras fontes de células-tronco, como a medula óssea, cuja extração é mais invasiva e dolorosa”, destacam os autores.
Além disso, por se tratar de células do próprio paciente, o risco de rejeição é praticamente inexistente, fator que amplia seu valor para aplicações futuras em medicina personalizada.
10 milhões de oportunidades por ano
Cerca de 10 milhões de dentes do siso são extraídos anualmente em todo o mundo, geralmente entre a adolescência e o início da fase adulta — período em que a polpa ainda apresenta baixa taxa de degradação genética. Isso significa que há uma janela valiosa para a coleta e preservação dessas células em bancos especializados.
Empresas de biotecnologia, como a Stemodontics, já oferecem kits para que o material dentário seja extraído, armazenado e transportado até laboratórios onde as células-tronco são isoladas e conservadas. Segundo os pesquisadores, este processo pode representar uma espécie de “seguro celular” para usos futuros — com custos significativamente menores do que outras técnicas de obtenção de células-tronco.
Menos filas, mais esperança
Além do benefício científico, o uso de dentes do siso como fonte celular pode ter um impacto importante sobre os sistemas de saúde. Com menos dependência de doadores compatíveis, há redução no tempo de espera por tratamentos e transplantes, além de mais acessibilidade e segurança para os pacientes.
A descoberta fortalece o movimento global em torno da exploração de fontes não convencionais de células-tronco, especialmente aquelas que podem ser obtidas com facilidade, sem sofrimento e com amplo potencial de uso clínico.