Um novo estudo clínico conduzido por equipes da University of California, San Francisco (UCSF) e da University of Adelaide (Austrália) aponta que o consumo diário de café com cafeína pode diminuir em até 39% o risco de recorrência de arritmia cardíaca em pessoas que passaram por procedimento de cardioversão — tratamento destinado a restaurar o ritmo normal do coração.
O que o estudo avaliou
O ensaio clínico, denominado “Does Eliminating Coffee Avoid Fibrillation (DECAF)”, incluiu cerca de 200 pacientes que apresentavam quadro de Fibrilação Atrial (AF) ou flutter atrial e que passaram por cardioversão para restabelecer ritmo sinusal. Após o procedimento, metade dos participantes foi instruída a beber pelo menos uma xícara de café com cafeína por dia, enquanto a outra metade ficou sem consumir nenhuma bebida ou alimento com cafeína pelo período de seis meses.
Os resultados mostraram que 47% dos indivíduos que continuaram consumindo café apresentaram nova ocorrência de arritmia ou flutter, comparados a 64% daqueles que abstinham de cafeína — o que corresponde à redução estimada de 39% no risco para o grupo que manteve o café.
Possíveis explicações para o efeito protetor
Os pesquisadores sugerem que o benefício pode não estar apenas na cafeína, mas também em outros compostos presentes no café — como polifenóis, compostos antioxidantes e agentes com efeito antiinflamatório. Além disso, o café tem propriedades leves de diurese e pode ajudar a reduzir pressão arterial, o que indiretamente favoreceria a estabilidade do ritmo cardíaco.
O estudo cita ainda que, longe da crença antiga de que café poderia agravar arritmias, os achados sugerem que, pelo menos para esse perfil de pacientes, o consumo moderado não agravou o quadro e pode até oferecer proteção.
Limitações e considerações clínicas
Apesar dos resultados animadores, os autores fazem ressalvas importantes:
- O estudo envolveu uma amostra relativamente pequena (200 pacientes) e um período de acompanhamento curto (seis meses), o que limita a generalização dos achados.
- Os participantes eram, em sua maioria, pessoas que já consumiam café; não está claro se os mesmos efeitos ocorreriam com novos consumidores.
- O consumo “uma xícara por dia” foi o protocolo do estudo; não se sabe ainda se doses maiores ou menores teriam o mesmo benefício ou risco.
- Alguns pacientes ainda podem reagir individualmente à cafeína, e médicos alertam que casos específicos devem ser avaliados com cautela.
O que isso significa na prática
Para pessoas com fibrilação atrial que passam por cardioversão e já apreciam café, o estudo pode trazer tranquilidade de que continuar com uma xícara diária provavelmente não representa risco adicional — e pode até reduzir a chance de recorrência. Contudo, a decisão de manter ou alterar o consumo de café deve ser individualizada, com acompanhamento médico.
Médicos e especialistas apontam que não se trata de incentivo irrestrito ao café, mas de ajustar hábitos de consumo à realidade clínica de cada paciente.
Mensagem final
Este estudo representa um passo significativo na revisão de orientações tradicionais sobre café e arritmia cardíaca. Embora não substitua tratamento, acompanhamento e prevenção, ele abre espaço para repensar o papel do café na saúde cardiovascular — especialmente em quem já enfrenta arritmias. A medicina avança no sentido de atitudes mais personalizadas e fundamentadas em evidências, e este trabalho contribui para isso.
