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EUA retiram seis vacinas do calendário infantil recomendado e especialistas alertam para risco de retorno de doenças

EUA retiram seis vacinas do calendário infantil recomendado e especialistas alertam para risco de retorno de doenças
  • Publishedjaneiro 6, 2026

O governo dos Estados Unidos anunciou nesta segunda-feira (5) uma mudança considerada inédita no calendário de vacinação infantil do país: seis vacinas deixaram de ser recomendadas de forma rotineira para todas as crianças. A decisão foi divulgada pelo Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS), chefiado por Robert Kennedy Jr., e faz parte de uma revisão mais ampla da política de imunização promovida pela gestão do presidente Donald Trump.

A partir da medida, as vacinas contra gripe, hepatites A e B, meningococo, vírus sincicial respiratório (VSR) e rotavírus deixam de constar como recomendação universal para todas as crianças. O anúncio ocorre após, meses antes, a vacina contra a Covid-19 ter sido retirada da lista de recomendações gerais para o público infantil.

Com a nova diretriz, esses imunizantes passam a ser indicados apenas para crianças consideradas de alto risco ou mediante recomendação médica individual, em um modelo descrito como “decisão compartilhada”, no qual cabe às famílias e profissionais de saúde avaliar caso a caso a necessidade da imunização.

Governo afirma buscar alinhamento internacional

Em nota, o secretário de Saúde afirmou que a revisão pretende aproximar os Estados Unidos do que chamou de “consenso internacional” sobre imunização pediátrica. A justificativa é que outros países adotam calendários com menos vacinas obrigatórias ou recomendadas de forma ampla.

O presidente Trump também se manifestou afirmando que, na visão do governo, o calendário infantil anterior estava “inflado”. Segundo ele, os pais continuam livres para vacinar completamente os filhos, e os imunizantes seguirão cobertos pelos planos de saúde.

Com a mudança, o país passa a recomendar 11 vacinas universais para crianças, número que antes era de 17. Em comparação, a França exige 12 vacinas obrigatórias, enquanto outros países europeus seguem modelos mais variados, com diferenças no número de imunizações e nas estratégias de obrigatoriedade.

Comunidade médica reage e contesta comparação

A decisão provocou reação imediata de especialistas e entidades médicas, que alertam para o risco de fragilizar a proteção coletiva e abrir espaço para o retorno de doenças evitáveis, especialmente em regiões onde a cobertura vacinal infantil já vinha caindo desde a pandemia.

O pediatra e infectologista Sean O’Leary afirmou que o calendário vacinal infantil dos Estados Unidos é uma das estratégias mais estudadas e eficazes para prevenir doenças graves e potencialmente fatais. Para ele, mudanças desse porte deveriam se basear exclusivamente em evidências científicas consolidadas.

Pesquisadores da Universidade de Minnesota também criticaram o uso da Dinamarca como exemplo de referência, argumentando que a comparação ignora fatores estruturais: o país europeu possui população pequena e mais homogênea, sistema de saúde altamente centralizado e acesso universal, além de menor prevalência de doenças infecciosas — condições muito diferentes das observadas no cenário norte-americano.

Críticas também dentro do próprio partido de Trump

Mesmo entre republicanos, a decisão gerou desconforto. O senador Bill Cassidy, que é médico, questionou publicamente o processo de mudança e disse que a revisão não se apoia em evidências científicas claras, além de ter sido conduzida com baixa transparência.

Para ele, a retirada de recomendações pode ampliar a insegurança entre médicos e pacientes e enfraquecer ainda mais a confiança na vacinação, especialmente em um momento em que o país enfrenta quedas preocupantes nas taxas de cobertura infantil.

Mudança se soma a decisões recentes que preocupam especialistas

O anúncio reforça um histórico recente de medidas interpretadas por parte da comunidade científica como retrocessos na política de imunização. Em dezembro, a agência reguladora norte-americana Food and Drug Administration (FDA) informou que abriria investigações sobre possíveis mortes associadas às vacinas contra a Covid-19, apesar de haver ampla evidência científica sobre a segurança e eficácia desses imunizantes.

No mesmo período, um comitê técnico reformulado pelo próprio secretário de Saúde suspendeu a recomendação da vacina contra hepatite B para todos os recém-nascidos — uma diretriz que ia na contramão de práticas consolidadas na saúde pública.

Medo central: o retorno de doenças já controladas

A preocupação mais repetida por médicos e entidades científicas é que, ao deixar de reforçar a vacinação universal, o país possa enfrentar o ressurgimento de doenças já consideradas controladas, como sarampo e meningite, especialmente em comunidades com menor acesso à assistência e maior hesitação vacinal.

Embora a obrigatoriedade de vacinas para matrícula escolar seja definida pelos estados — e não pelo governo federal —, especialistas destacam que as diretrizes nacionais costumam orientar decisões locais. Diante da mudança, alguns estados já avaliam estratégias próprias para manter calendários mais amplos.

Para os profissionais de saúde, o risco não está apenas na retirada formal das recomendações, mas no impacto cultural e comunicacional da medida: ao relativizar a importância das vacinas, o país pode fortalecer movimentos de hesitação vacinal e comprometer uma das estratégias mais eficientes da medicina preventiva moderna.

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Executivos da Saúde

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