A radiação que cresce: como o clima está impulsionando o câncer de pele no Brasil

No Piauí, mais de 50% das biópsias confirmam a doença por meio do projeto itinerante que abrange todo o estado

O debate sobre mudanças climáticas costuma se concentrar em enchentes, secas, queimadas e prejuízos econômicos. Mas há um efeito silencioso, pouco discutido e cada vez mais evidente: o avanço do câncer de pele. Em um planeta que aquece rapidamente, a relação entre radiação ultravioleta (UV) e tumores cutâneos deixa de ser um tema restrito à dermatologia e se impõe como um problema urgente de saúde pública.

A radiação UV — UVA, UVB e UVC — sempre foi reconhecida como agressora da pele. A UVB danifica diretamente o DNA; a UVA, antes subestimada, hoje se sabe capaz de gerar radicais livres e mutações. Somados ao efeito imunossupressor da radiação, esses mecanismos abrem caminho para carcinomas e melanomas, os tipos mais comuns e perigosos de câncer de pele.

Com o avanço das mudanças climáticas, esse risco se intensifica, como aponta o estudo ‘O impacto das mudanças climáticas na incidência de câncer de pele: mecanismos, vulnerabilidades e estratégias de mitigação’. Temperaturas mais altas e dias mais ensolarados estimulam a permanência ao ar livre, muitas vezes sem proteção adequada. Estudos internacionais mostram que o calor potencializa os danos da radiação UV, e projeções indicam que um aumento global de 2 °C pode elevar em até 11% a incidência de câncer de pele até 2050. No Brasil, país tropical e desigual, esse impacto tende a ser ainda mais profundo.

O Piauí é um exemplo emblemático. Com temperaturas elevadas o ano inteiro, radiação solar intensa e grande parte da população trabalhando ao ar livre, o estado reúne condições perfeitas para a explosão de casos. Mas o que antes era apenas percepção empírica ganhou números concretos com o Projeto AMEI — Atendimento Médico Especializado Itinerante. Em apenas sete meses, foram quase 9,6 mil atendimentos, sendo 4 mil dermatológicos. Mais de mil biópsias foram realizadas, e mais da metade confirmou câncer de pele. É um dado alarmante, que revela tanto a prevalência da doença quanto a subnotificação histórica, já que muitos pacientes só chegam ao médico quando a lesão está avançada.

A iniciativa do AMEI, desenvolvida pelo Governo do Estado do Piauí por meio do Instituto de Desenvolvimento do Nordeste (IDENE) em parceria com a Secretaria de Estado da Saúde (SESAPI), representa um salto qualitativo na política pública de saúde. Trata-se de uma ação inovadora, que leva diagnóstico especializado a regiões onde o acesso sempre foi limitado. O programa não apenas identifica casos ocultos, mas inaugura um modelo de rastreamento ativo que pode — e deveria — inspirar outros estados brasileiros.

O AMEI expõe uma realidade incômoda: o câncer de pele não é apenas consequência do sol forte, mas também da falta de acesso à saúde, da ausência de políticas de prevenção e da desigualdade climática que castiga mais intensamente regiões como o Nordeste.

Para o Brasil, o cenário já é de risco elevado devido à forte radiação UV ao longo do ano, com perspectivas de agravamento em função das mudanças climáticas — especialmente em áreas de baixa latitude, como a faixa equatorial. Estudos nacionais mostram aumento progressivo da incidência e da mortalidade por câncer de pele nas últimas décadas, com destaque tradicional para Sul e Sudeste (mais fototipos claros), mas com subnotificação persistente no Norte e Nordeste. Nesse contexto, o rastreamento ativo realizado no Piauí se consolida como uma das principais estratégias de descentralização do acesso à saúde especializada e de fortalecimento do diagnóstico precoce no país.

Ignorar esse cenário é um erro estratégico. O câncer de pele é, em grande parte, evitável. Mas prevenção exige informação, rastreamento, protetor solar acessível, campanhas permanentes e políticas públicas que entendam que clima e saúde caminham juntos.

As mudanças climáticas não são um problema distante. Elas já estão marcadas na pele — literalmente — de milhares de brasileiros. O futuro chegou, e ele pede ação.

**Jeanley Vieira é médico dermatologista e coordenador médico do projeto Atendimento Médico Especializado Itinerante (AMEI), voltado para o rastreio de câncer de pele, colo de útero e próstata, no Piauí. Formado pela Universidade Federal do Piauí, com pós-graduação em Dermatologia pelo ISMD, São Paulo e dermatologista titulado pela Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD e membro da Associação Brasileira de Medicina Estética.

Jeanley Vieira é médico dermatologista e coordenador médico do projeto Atendimento Médico Especializado Itinerante (AMEI) (Foto: Vinícius Araújo)

Sobre o IDENE

Fundado em 7 de abril de 2014, o Instituto de Desenvolvimento do Nordeste (IDENE) nasceu com o propósito de enfrentar desigualdades e fortalecer comunidades do Nordeste brasileiro. A partir de 2023, com novas frentes e contratos públicos, ampliou sua atuação na área da saúde, voltando-se ainda mais para as reais necessidades das populações vulneráveis, especialmente nas regiões mais desassistidas.

O IDENE é uma organização da sociedade civil sem fins lucrativos que atua pela transformação social do Nordeste, com ênfase crescente na promoção da saúde pública. Por meio de projetos sustentáveis, inclusivos e baseados em evidências, contribui para o fortalecimento das políticas públicas e para o desenvolvimento humano de forma integrada.

A instituição valoriza a articulação entre governos, setor privado, universidades e organismos internacionais, ampliando o impacto de suas ações em áreas estratégicas como atenção básica, prevenção de doenças, educação em saúde e bem-estar comunitário.



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Echo Comunicação
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hever@echocomunicacao.com.br

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