Por Marcelo Mansur
O Brasil enfrenta um desafio pouco conhecido, mas que já demonstrou o risco real que apresenta para a sociedade brasileira, que afeta a saúde pública e a segurança nacional: atualmente, o país produz apenas 5% dos Insumos Farmacêuticos Ativos (IFAs) que consome, uma queda drástica em relação aos 50% de autossuficiência de três décadas atrás.
A mudança se deve, em grande parte, à abertura comercial e ao foco em medicamentos genéricos, resultando em uma perigosa dependência de fabricantes asiáticos. A pandemia de Covid-19 expôs a fragilidade dessa dependência, evidenciando os riscos associados à interrupção das cadeias de fornecimento e a problemas logísticos, que resultaram, por exemplo, na falta de IFA para vacinas e para componentes do kit intubação.
Durante esse período de crise, a importância da Política de Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDP) se tornou evidente. Graças a essa política, a Nortec Química foi capaz de manter o sistema abastecido com IFAs antirretrovirais, anestésicos locais, e próprio midazolam, medicamento essencial para o kit de intubação, salvando vida. As PDPs utilizam a demanda de medicamentos gerada pelo SUS como alavanca para a produção nacional de IFAs, exigindo que estes sejam produzidos dentro de território brasileiro. A continuidade das PDPs é obrigatória para que possamos alcançar a meta de 70% de autossuficiência na produção de IFAs e para termos autonomia nos produtos que são fornecidos pelo SUS para a população. Além disso, os investimentos viabilizados pela política habilitam empresas nacionais a terem capacidade fabril e humana para alcançarem o sonho do Brasil se tornar um hub de inovação na indústria farmacêutica. Não há como dominarmos as novas tecnologias se não tivermos autonomia sobre a cadeia produtiva de nossas próprias inovações.
A trajetória da Nortec Química exemplifica o potencial da farmoquímica nacional que investe em sua capacidade fabril e laboratorial. Com apoio e ações de políticas públicas, a Nortec se consolidou como uma fabricante de IFAs a nível global, oferecendo custo competitivo com empresas asiáticas e qualidade à par de produtores tradicionais europeus. Recentemente, lançamos a plataforma de CDMO (Custom Development and Manufacturing Operations) via nossa sexta planta industrial, um inovador laboratório que produz lotes de 100gr até 1,0 kg, incluindo de produtos oncológicos e de alta potência até então inéditos no País.
Esta plataforma nos habilita a ser parceiro nacional para as farmacêuticas que buscam inovação e serem donos de suas próprias tecnologias, utilizando a Nortec como parceiros locais para a produção de suas tecnologias proprietárias. Também nos permite absorver novas tecnologias via a política das PDPs, trazendo e produção de medicamentos inovadores e essenciais para o SUS ao território brasileiro.
Neste espaço, realizamos desde a síntese química em escala de bancada, que envolve a produção em pequenas quantidades, até o escalonamento para protótipos, aumentando a produção para quilos até chegarmos à produção industrial propriamente dita.
Esse processo ocorre em velocidade e em conformidade com os padrões rigorosos exigidos pelos principais reguladores globais, como a Anvisa no Brasil, o FDA nos Estados Unidos, a MHRA no Reino Unido e o CEP e EDQM na Europa. Essa conformidade não só garante a qualidade dos produtos que desenvolvemos, mas também sua entrada nos mercados consumidores. Isso nos posiciona como um parceiro estratégico para laboratórios farmacêuticos que buscam uma cadeia de suprimentos confiável, capaz de acelerar as etapas de pesquisa, desenvolvimento e produção fora do ambiente tradicional asiático.
A nossa jornada de inovação está apenas começando e o potencial é imenso, mas ela não se sustenta sem políticas públicas consistentes que enxerguem o Brasil do que mais que um mercado de genéricos e pregões em que medicamentos são uma commodity como qualquer outra. A indústria de IFAs só existe onde há uma decisão do governo local que ela exista. A política de PDPs é uma forma provada e evidenciada pelas fábricas que construímos e centenas de empregos que geramos que é possível utilizar a demanda do SUS para alavancar a produção nacional de IFAs.
Com a continuidade e fortalecimento dessa política teremos condições de aumentar o parque fabril, gerar mais emprego e conhecimento, montar um ecossistema de inovação sustentável e autônomo, e garantir a soberania nacional para novos momentos de crise que virão. O Brasil é grande demais para depender dos outros para garantir seu Sistema de Saúde, e como vimos durante a COVID, em momentos de crise cada País cuida primeiro da sua população.
Como CEO da Nortec Química, maior produtora independente de IFAs sintéticos do Brasil e da América Latina, acredito no papel que temos a desempenhar para evidencia os avanços que a política já trouxe, e de seguirmos como exemplo para a sua continuidade com os novos projetos que vieram a partir de 2025 após 8 anos de interrupção.
