Líderes de operadoras e prestadores de saúde lançam a maior aliança setorial da história recente do mercado e o plano é mudar as regras do jogo antes que o sistema quebre
Todo ano, R$ 10 bilhões simplesmente somem. Não em fraudes, não em má gestão, mas em glosas, retrabalho burocrático e disputas judiciais que opõem dois lados que, na teoria, deveriam estar trabalhando juntos: as operadoras de planos de saúde e os prestadores de serviços médicos. Para um setor que atende dezenas de milhões de brasileiros, esse desperdício sistêmico deixou de ser tolerável.
A conta é apresentada pela própria Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS): glosas representam R$ 10 bilhões em impacto financeiro anual para os prestadores, e cerca de 25% dos conflitos entre as partes terminam em processos judiciais. No cenário internacional, países que adotaram modelos de value-based healthcare registram taxas de negação de pagamento entre 10% e 20%. No Brasil, em algumas especialidades, esse índice supera 25%.
O TAMANHO DO PROBLEMA – DADOS ANS 2026
| R$ 10bi impacto anual de glosas nos prestadores | 25% dos conflitos chegam à Justiça | >25% taxa de glosas em certas especialidades | 47M+ beneficiários afetados pelo sistema |
É nesse cenário que nasce a Aliança Nacional de Boas Práticas na Saúde Suplementar (ANBP), um movimento inédito que reúne, no mesmo documento fundador, CEOs de grandes redes hospitalares, diretores de operadoras, representantes da ANS e especialistas em qualidade e tecnologia. São membros dos conselhos técnicos: Everton Arraes (CEO do Grupo CMSS, maior ecossistema médico da América Latina), Alline Cezaerani (CEO da Rede Santa Catarina), Cesar Buchalla (CEO da Consulthree e Diretor Técnico da INSA), Guilherme Coutinho Borges (Vice-presidente da Kora Saúde), Paulo de Conti (Presidente da Unimed Jau), Alexandre Cunha (Diretor da MedSenior), Newton Nunes (Diretor Financeiro da Unimed Participações e Presidente da CBEXs Piauí), Talita Freire (Diretora Executiva da Plena Saúde), Silvia Jaldin (Superintendente do Cremesp), Leandro Barros (CEO da Faturale), Marcelo Vieira (CEO da Rede Primavera Saúde), Allan Kern (Consultor do Hospital Albert Einstein, Professor e Avaliador da ONA), Pedro Batista (CEO e Fundador da Horus AI), Rubilene Lustosa (Membro do Comitê do Albert Einstein), Marcelo Zobaran (Diretor Técnico da ANS) e Laercio Neves (Professor e Gestor de Qualidade). O objetivo é simples: criar uma estrutura colaborativa entre prestadores e operadoras de saúde, capaz de transformar uma relação historicamente conflituosa em parceria orientada a resultados.
A INSA – Instituto Nacional de Saúde Avançada, instituição sem fins lucrativos, está desenvolvendo este Manual de Boas Práticas. Mais do que um projeto, trata-se de um movimento que busca transformar a forma como a saúde suplementar se organiza, se relaciona e evolui no Brasil.
“Este não é apenas um projeto. É um movimento para transformar a forma como a saúde suplementar se organiza, se relaciona e evolui no Brasil.”
Da trincheira à mesa de negociação
A relação entre prestadores e operadoras sempre foi descrita por quem opera no setor com um vocabulário de guerra: glosas, auditorias, contestações, liminares. Um grande hospital do interior de São Paulo, cujo nome foi preservado a pedido da própria instituição, é um exemplo concreto de como esse modelo corrói valor. Com 55% das suas glosas de origem administrativa, erros de preenchimento e documentação incompleta, a instituição perdia centenas de milhares de reais por mês antes de implementar um sistema de auditoria interna pré-faturamento. Resultado após seis meses: queda de 40% nas glosas e recuperação de R$ 350 mil em valores contestados. Sem renegociar contratos. Sem mudar a equipe médica. Apenas com organização de processos.
Nota editorial: os nomes do hospital e da operadora foram alterados a pedido das próprias instituições, para preservar o sigilo comercial das informações compartilhadas com a ANBP.
Do lado das operadoras, o exemplo de uma grande operadora fluminense, igualmente preservada para fins de sigilo comercial, aponta na mesma direção. A operadora levava 72 horas para autorizar Órteses, Próteses e Materiais Especiais (OPME), gerando filas cirúrgicas e irritação nos prestadores. Após digitalizar o processo com inteligência artificial para pré-análise, o tempo caiu para 24 horas e a satisfação dos parceiros subiu 25%.
Esses não são casos excepcionais. São a prova de que o problema nunca foi falta de recursos, mas falta de padrão, afirma o manifesto da ANBP.
O manual que quer virar referência nacional
O produto central da aliança é um Manual Nacional de Boas Práticas, cujo processo de desenvolvimento tem início em abril de 2026 e previsão de entrega para novembro do mesmo ano. O documento em construção já cobre desde protocolos de credenciamento e gestão de glosas até o uso de inteligência artificial, blockchain e telemedicina. Mas seu coração está nos princípios que o norteiam: transparência, sustentabilidade, foco no paciente, qualidade assistencial e, acima de tudo, colaboração.
A estratégia de implementação segue um roadmap em três fases:
| Fase 1 6 meses | Programa piloto com 3 operadoras e 5 prestadores. Foco em protocolos de glosas e credenciamento baseado em valor. Coleta de dados e ajustes. |
| Fase 2 12 meses | Abertura para novos membros. Implementação dos protocolos de judicialização e gestão de informação. Lançamento da plataforma de boas práticas. |
| Fase 3 24 meses | Lançamento do Selo de Certificação ANBP. Revisão periódica do manual. Expansão para novos modelos de remuneração e tecnologias emergentes. |
Roadmap de implementação da ANBP, conforme o Manual Nacional de Boas Práticas 2026.
Um comitê para negociar o que o mercado nunca quis colocar na mesa
| Comitê de Negociação ANBP: um novo espaço para acordos estruturais Entre as iniciativas mais concretas da Aliança está a criação de um Comitê de Negociação dedicado a mediar e estruturar as relações contratuais entre hospitais, clínicas e operadoras de saúde. O comitê atuará como instância técnica e imparcial para tratar temas como revisão e atualização de tabelas de remuneração, regularização de faturamentos atrasados ou contestados, acompanhamento de processos administrativos em aberto entre prestadores e operadoras, interrupção planejada ou emergencial de serviços médicos credenciados e outras negociações que exijam assessoria especializada e visão sistêmica do setor. A proposta rompe com o modelo reativo predominante, no qual conflitos só chegam a uma mesa de negociação depois de escalarem para disputas judiciais. Com o Comitê de Negociação da ANBP, prestadores e operadoras terão um canal permanente, estruturado e tecnicamente qualificado para resolver impasses antes que se tornem passivos financeiros e jurídicos para ambos os lados. |
O paciente como métrica final
Por trás dos números de glosas e autorizações, a ANBP insiste em um argumento que deveria ser óbvio, mas raramente aparece nos acordos entre operadoras e prestadores: o paciente é quem paga o preço dos conflitos. Atrasos em autorizações, descontinuidade no cuidado, burocracia excessiva, tudo isso se traduz em piora dos desfechos clínicos e em experiências que afastam beneficiários de qualquer fidelização ao sistema.
A proposta da aliança é reorganizar os processos a partir da jornada do paciente: do primeiro contato ao acompanhamento pós-alta, com integração de dados entre prestadores e operadoras, redução de etapas redundantes e adoção de indicadores como NPS e satisfação do beneficiário como métricas de performance, não apenas como relatórios de compliance.
“A experiência do paciente é a síntese de todo o sistema. É por meio dela que qualidade, eficiência e integração se tornam perceptíveis.”
O selo que pode mudar o poder de negociação
Para institucionalizar o movimento, a ANBP prevê um Selo de Certificação que reconhece operadoras e prestadores alinhados às diretrizes do manual. Os critérios incluem taxa de glosas abaixo de 5%, satisfação do paciente acima de 85% e aprovação em auditoria externa independente. Para quem atinge o padrão, a recompensa é visibilidade de mercado, preferência nas redes de credenciamento e redução estrutural de custos operacionais.
O modelo não é novo no mundo da saúde. Acreditações como a ONA e a Joint Commission já demonstraram que certificações setoriais elevam o padrão geral do mercado e criam assimetrias positivas de reputação. A diferença é que o Selo ANBP nasce com foco específico na relação entre os dois lados do sistema, não apenas na qualidade assistencial de cada instituição isolada.
O desafio de escala: de piloto a padrão nacional
A maior pergunta que paira sobre a ANBP é a de sempre: conseguirá sair do papel? O histórico de iniciativas setoriais no Brasil, que costumam morrer nos comitês, justifica o ceticismo. Mas há sinais que diferenciam este movimento. A presença da ANS na composição técnica reduz o risco de marginalização regulatória. O recorte pragmático, começar com casos concretos de redução de glosas e não com grandes reformas estruturais, aumenta a chance de adesão inicial. E a amplitude da coalizão, que vai de CEOs de redes hospitalares a professores de gestão de qualidade, sugere que o manual não representa apenas uma facção do setor.
A transformação que a aliança propõe é, em última análise, cultural. Mudar uma relação historicamente marcada por desconfiança exige mais do que manuais e selos. Exige que as lideranças de ambos os lados decidam, deliberadamente, que colaborar é mais lucrativo do que brigar. Nos números, essa lógica já é evidente. A questão é se o setor vai ouvi-los a tempo.
