Um estudo abrangente conduzido pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) expõe uma realidade perturbadora: moradores de áreas mais vulneráveis de Campinas apresentam risco significativamente elevado de morte por câncer, mesmo quando a incidência de diagnósticos nesses grupos é menor. Essa paradoxo revela não uma menor prevalência de doença, mas um sistema de saúde profundamente desigual que falha sistematicamente em detectar e tratar câncer em populações pobres.
A pesquisa, desenvolvida pelo Centro de Inovação Teranóstica em Câncer (CancerThera) e publicada na revista científica internacional Cancer Epidemiology, fornece evidências robustas de que o acesso desigual aos serviços de saúde é um dos principais fatores determinantes dessa disparidade mortal.
Metodologia Rigorosa e Base de Dados Abrangente
A investigação analisou um período de dez anos (2010 a 2019) e integrou três bases de dados oficiais de elevada qualidade:
- Registro de Câncer de Base Populacional (RCBP) de Campinas: auditado pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), ligada à Organização Mundial da Saúde (OMS)
- Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM): dados oficiais de óbitos
- Índice Paulista de Vulnerabilidade Social (IPVS): classificação de vulnerabilidade socioeconômica
A qualidade excepcional dessa base de dados foi possibilitada por lei municipal de 2017 que tornou o câncer doença de notificação compulsória, ampliando significativamente o monitoramento de casos pela rede pública. Campinas possui primazia nacional em manter um registro de câncer de base populacional — uma capacidade rara entre municípios brasileiros — garantindo que todos os casos de câncer sejam prospectivamente coletados e analisados.
Para medir as desigualdades, os pesquisadores utilizaram o Índice Relativo de Desigualdade (RII), ferramenta que permite comparar o risco de adoecimento e morte entre diferentes grupos socioeconômicos ao longo do tempo.
O Paradoxo da Desigualdade em Contexto de Desenvolvimento
Um aspecto particularmente revelador do estudo é que Campinas possui Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) considerado muito alto (0,805) e taxa de urbanização de 98,28% — fatores comparáveis aos de países de alta renda. Apesar dessa condição geral favorável, existe clara desigualdade quando se mapeia a incidência de casos e mortalidade por câncer na metrópole de 1,18 milhão de habitantes.
Essa constatação demonstra que o desenvolvimento econômico agregado não garante equidade em saúde. Conforme observado pelos pesquisadores: “A cidade como um todo é poderosa, com um dos IDHs mais altos do Brasil, mas não é homogênea. Aí fica claro que as questões socioeconômicas são importantíssimas em relação à mortalidade.”
O local onde a pessoa mora e sua condição social interferem diretamente no acesso aos serviços de saúde e na chance de sobrevivência — uma realidade que transcende indicadores macroeconômicos.
O Fenômeno do Subdiagnóstico: Menos Diagnósticos, Mais Mortes
Os dados indicam claramente subdiagnóstico entre populações vulneráveis: a população mais pobre não necessariamente adoece menos, mas tem menos acesso a exames diagnósticos e descobre a doença em estágios significativamente mais avançados. Conforme afirmado pela epidemiologista Andrea von Zuben: “Os dados mostram que a mortalidade por câncer pode ser até três vezes maior entre os mais vulneráveis, evidenciando que pode haver acesso tardio ao diagnóstico e ao tratamento.”
Entre os principais problemas identificados nesses grupos estão:
- Dependência quase exclusiva do SUS: sem acesso a serviços privados alternativos
- Maior tempo de espera para exames e consultas: atrasos que permitem progressão da doença
- Diagnósticos tardios e menor chance de cura: detecção em estágios avançados reduz significativamente as opções terapêuticas
Análise Tipológica: Disparidades Específicas por Tipo de Câncer
O estudo detalha disparidades específicas para diferentes tipos de câncer, revelando padrões distintos de desigualdade:
Câncer de Colo do Útero: Doença altamente prevenível através de vacinação, praticamente desapareceu nas áreas mais ricas de Campinas, mas segue representativa nas regiões vulneráveis. A mortalidade é até 3,6 vezes maior entre as mulheres pobres — disparidade que reflete falhas no acesso a programas de rastreamento e vacinação.
Câncer de Próstata: Homens em situação de maior vulnerabilidade dependem quase exclusivamente do SUS, onde enfrentam maiores tempos de espera para consultas especializadas, exames diagnósticos, biópsias e ressonâncias. Barreiras socioculturais, incluindo preconceitos relacionados ao exame de toque retal, contribuem para busca tardia por atendimento. O risco de morte é até 3 vezes maior entre homens mais pobres (2015–2019).
Câncer de Cavidade Oral: Falhas na atenção básica em Campinas influenciam significativamente os resultados. A proporção de equipes de saúde bucal no SUS é inferior ao ideal, com foco ainda muito centrado em procedimentos curativos (restaurações e extrações) em detrimento de ações sistemáticas de rastreamento e busca ativa. Lesões simples na boca podem evoluir para casos fatais devido ao acesso tardio a biópsias e cirurgias de cabeça e pescoço. O risco de morte é até 3,3 vezes maior entre os mais pobres.
Câncer de Estômago: Embora Campinas acompanhe a tendência nacional de queda geral na incidência e mortalidade entre homens, o estudo indica que a doença ainda atinge mais a população pobre. Homens socialmente vulneráveis continuam registrando as maiores taxas de adoecimento e morte devido a barreiras no acesso ao diagnóstico precoce e maior exposição a fatores de risco (fatores genéticos, excesso de sal, alimentos armazenados inadequadamente, bactéria Helicobacter Pylori). Entre a população feminina, o câncer de estômago passou a atingir com mais força as mulheres de baixa renda a partir de 2015.
Câncer de Mama: Apresenta maior incidência em mulheres mais ricas, consequência de fatores reprodutivos (ter filhos mais tarde ou não ter filhos) e maior acesso a exames preventivos. Mulheres pobres tendem a descobrir a doença em estágios avançados, resultando em pior prognóstico.
Câncer de Pulmão: Identificou-se crescimento da incidência e mortalidade entre mulheres, associado ao aumento histórico do tabagismo nessa população — padrão consistente com documentação epidemiológica mundial sobre transição do tabagismo por gênero.
Câncer Colorretal: Há dificuldade na oferta de exames complexos, como colonoscopia, em larga escala pelo SUS. A doença está ligada ao consumo de ultraprocessados, obesidade e sedentarismo, e pode se tornar uma das maiores causas de morte evitável entre os mais pobres nos próximos anos. Os óbitos começam a se concentrar entre populações vulneráveis.
Implicações para Políticas Públicas e Gestão de Saúde
Segundo os pesquisadores, o objetivo central do estudo é subsidiar a gestão pública de saúde local e estadual para o enfrentamento das iniquidades. Conforme afirmado pelo pesquisador responsável pelo CancerThera: “A ideia é que isso sirva para que, principalmente a Secretaria Municipal de Saúde, trabalhe as questões de políticas públicas. Só com boas políticas públicas é que você vai conseguir rastrear, fazer diagnóstico precoce e, consequentemente, tratar precocemente.”
O estudo descortina a possibilidade de avanço em algumas áreas e esclarecimento em outras, particularmente em conscientização da população e treinamento de profissionais de saúde. A questão do letramento em câncer representa grande problema tanto da população quanto dos profissionais de saúde. Conforme ressaltado: “Hoje, os profissionais de saúde têm que pensar oncologicamente, porque é cada vez mais frequente.”
Perspectiva Futura e Urgência de Ação
A epidemiologista Andrea von Zuben enfatiza que “a desigualdade em saúde não só persiste, como em alguns casos está aumentando, exigindo políticas públicas direcionadas e territorializadas.” Complementando essa perspectiva, o pesquisador responsável pelo CancerThera afirma: “O câncer não vai diminuir, o câncer só vai aumentar. Então, nós temos que nos preparar.”
Essa constatação reforça a urgência de ação integrada que combine rastreamento precoce, diagnóstico ágil, acesso equitativo a tratamento e educação em saúde — particularmente direcionada às populações mais vulneráveis.
