Programa Nacional para as Hepatites Virais: Diretor Recomenda Ampliação de Testagem como Estratégia Central de Controle

Portugal Registra Aumento de 265% em Hepatite A e 31% em Hepatite B — Tratamento da Hepatite C Alcança Taxas de Cura Próximas a 97% em Mais de 38 Mil Pacientes

O diretor do Programa Nacional para as Hepatites Virais (PNHV), Rui Tato Marinho, recomendou a ampliação da testagem para hepatites virais como estratégia central de controle epidemiológico. Em entrevista à agência Lusa, no Dia Mundial das Hepatites, o especialista destacou que as hepatites e doenças hepáticas apresentam caráter assintomático, tornando o rastreio o instrumento-chave para identificação precoce e intervenção terapêutica.

Contexto Epidemiológico: Aumento Expressivo de Casos

O relatório de 2025 do PNHV da Direção-Geral da Saúde (DGS) documenta aumentos significativos:

Hepatite A: Cenário de Baixa Endemicidade Com Surto Emergente

Apesar de Portugal ser considerado país de baixa endemicidade para hepatite A, com valores anuais recorrentes inferiores a 1 caso confirmado por 100.000 habitantes, o aumento de 845 casos no último ano requer atenção epidemiológica.

Conforme afirmado por Rui Tato Marinho:

“Claro que quando um dado sai fora da normalidade é preocupante, mas em termos de saúde global, não será dos casos mais preocupantes porque a mortalidade é muito baixa e esta é uma doença que não deixa sequelas para toda a vida.”

O especialista destacou que as crises de hepatite A ocorrem em agregados familiares e grupos populacionais específicos, associadas a condições higiénicas deficientes.

Vacinação Contra Hepatite A: Instrumento de Controle

Embora a vacina contra hepatite A não esteja classicamente incluída no Programa Nacional de Vacinação, o número de doses administradas atingiu recorde histórico:

Conforme afirmado: “Esta vacina é eficaz. É uma arma extremamente importante para controlar as crises.”

Estratégia de Testagem: Recomendação Central

A recomendação principal do diretor do PNHV é direta:

“A nossa mensagem é: façam os testes pelo menos uma vez na vida. Podem incluir a hepatite A, a B e a C, além da Delta que é mais rara. A maior parte destas doenças são assintomáticas, são silenciosas. Portanto, fazendo estes testes, chamados marcadores do vírus, que são análises muito simples, às vezes até podem ser testes rápidos, a pessoa fica a saber se tem ou não, se teve ou não.”

A testagem deve incluir marcadores virais para:

Hepatite B: Vigilância e Populações Vulneráveis

O aumento de 31% nos casos de hepatite B reforça a necessidade de vigilância sustentada. Conforme afirmado:

“A vigilância nunca deve abrandar.”

Fatores adicionais a considerar:

Hepatite C: Dez Anos de Acesso Universal ao Tratamento

O relatório destaca marco histórico: dez anos após o acesso universal ao tratamento da hepatite C em Portugal:

O especialista reforça a importância de identificar pacientes que podem não ter tido acesso ao tratamento otimizado em seus países de origem:

“A percentagem de hepatite C não será muito elevada, mas podem não ter tido acesso ao melhor tratamento nos seus países e aqui poderemos ajudar.”

Notificação de Casos: Responsabilidade Clínica

Rui Tato Marinho emitiu alerta direto aos médicos:

“Também é importante chamar a atenção dos médicos porque devem notificar os casos que aparecem, até para tomar medidas de saúde pública.”

A notificação oportuna é elemento fundamental para:

Doença Hepática: O Órgão Silencioso

O diretor do PNHV destacou a importância da atenção à saúde hepática:

“Doenças no fígado, um órgão que não dá sinal, mas sem ele não há vida.”

As hepatites virais continuam a representar importante causa de:

Os vírus das hepatites B e C são responsáveis pela maioria da mortalidade associada a doenças hepáticas.

Implicações Para a Prática Clínica

Para profissionais de saúde, as recomendações incluem:

  1. Testagem rotineira: solicitação de marcadores virais (HAV, HBV, HCV, HDV) pelo menos uma vez na vida adulta
  2. Vigilância em populações vulneráveis: atenção especial a população migrante de países de maior prevalência
  3. Notificação obrigatória: registo de casos confirmados para vigilância epidemiológica
  4. Vacinação: verificação de status vacinal para hepatite A e B; consideração de vacinação em grupos de risco
  5. Encaminhamento terapêutico: identificação de pacientes com hepatite C para tratamento com antivirais de ação direta
  6. Abordagem familiar: investigação de contactos em casos de hepatite A e B

Conclusão

O aumento documentado de casos de hepatite A (265%) e B (31%) em Portugal reforça a necessidade de ampliação da testagem como estratégia central de controle. O sucesso do programa de tratamento da hepatite C, com taxas de cura próximas a 97% em mais de 38 mil pacientes, demonstra que instrumentos eficazes estão disponíveis. A detecção precoce através de testagem rotineira de marcadores virais, combinada com vacinação e notificação adequada, constitui a base para o controle das hepatites virais e prevenção de doença hepática crónica.

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