Covid-19 e Oropouche: como duas infecções virais podem antecipar o risco de doenças neurodegenerativas, segundo estudo da USP
Uma pesquisa conduzida pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP trouxe novas evidências de que duas infecções virais comuns no Brasil — Covid-19 e Febre do Oropouche — podem provocar alterações no cérebro humano adulto que se assemelham aos mecanismos iniciais de doenças neurodegenerativas. O estudo, desenvolvido a partir de tecido cerebral humano vivo mantido em laboratório, sugere que ambas as infecções são capazes de ativar processos inflamatórios e metabólicos associados a sintomas cognitivos e ao risco aumentado de degeneração neuronal ao longo dos anos.
Um modelo inovador que aproxima o laboratório da vida real
Ao contrário da maioria dos experimentos que utilizam modelos animais, a equipe da USP trabalhou com fragmentos reais de cérebro humano obtidos durante cirurgias no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto. Esse material, mantido vivo por técnicas específicas, preserva a arquitetura do tecido neural, permitindo observar com precisão como as células respondem a infecções virais.
O modelo possibilitou confirmar, com clareza, que tanto o coronavírus quanto o vírus Oropouche conseguem penetrar no sistema nervoso central e se replicar em células-chave para o funcionamento cerebral. Esse avanço ajuda a consolidar a relação entre quadros virais e sintomas persistentes como “névoa mental”, dificuldade de foco e lapsos de memória — manifestações já relatadas por milhares de pacientes desde o início da pandemia de Covid-19.
Dois vírus, duas portas diferentes para o dano neurológico
O estudo identificou que, embora ambos os vírus alcancem o cérebro, eles atacam células diferentes:
• Covid-19: dano aos astrócitos
Os astrócitos são células essenciais para nutrir, proteger e regular os neurônios. Quando infectados pelo SARS-CoV-2:
- parte dessas células morre;
- outra parte entra em estado de inflamação;
- o ambiente cerebral torna-se hostil para a função neuronal.
Essa disfunção compromete a comunicação entre neurônios e ajuda a explicar sintomas cognitivos observados em pacientes com Covid longa.
• Oropouche: inflamação profunda provocada pela micróglia
A micróglia atua como o sistema imune interno do cérebro. Quando é a própria célula defensora que é infectada:
- a resposta inflamatória se intensifica;
- o dano tecidual se expande;
- mecanismos de proteção se tornam prejudicados.
O achado acende um alerta especialmente relevante, já que os surtos de Oropouche têm aumentado no país.
Alerta vermelho: aumento da proteína Tau fosforilada
Durante os testes com o vírus Oropouche, os pesquisadores detectaram níveis elevados da proteína Tau fosforilada — molécula biologicamente associada à morte de neurônios e à progressão de doenças como Alzheimer.
Embora o estudo não indique que a infecção cause a doença, a alteração demonstra que o vírus pode:
- desencadear processos de neurodegeneração;
- comprometer estruturas neuronais essenciais;
- antecipar riscos em indivíduos predispostos.
Essa é uma das primeiras evidências de que vírus emergentes presentes no Brasil podem influenciar vias biológicas típicas de doenças neurodegenerativas.
O que tudo isso significa para o futuro?
Os resultados reforçam uma tese que há anos ganha força na neurociência: infecções virais podem funcionar como gatilhos biológicos que aceleram processos inflamatórios e degenerativos no cérebro, especialmente em pessoas vulneráveis.
A pesquisa também demonstra a necessidade de ampliar:
- o monitoramento neurológico de pacientes que tiveram essas infecções;
- o investimento em saúde pública, já que Covid-19 e Oropouche continuam circulando;
- estudos sobre as consequências de longo prazo das viroses tropicais no sistema nervoso.
O próximo passo da ciência brasileira
Com apenas poucas equipes no mundo capazes de trabalhar com tecido cerebral humano vivo, o grupo da USP coloca o Brasil na vanguarda da investigação dos efeitos neurológicos das infecções virais. Agora, os pesquisadores querem aprofundar a compreensão dos mecanismos exatos que levam ao dano neuronal e investigar se outros vírus emergentes no país têm comportamento semelhante.