Hospital privado no RJ já faz cirurgias oncológicas para pacientes do SUS pelo programa Agora Tem Especialistas
O programa Agora Tem Especialistas, do Governo Federal, deu mais um passo concreto na estratégia de reduzir filas e acelerar o acesso a procedimentos de alta complexidade no Sistema Único de Saúde. No estado do Rio de Janeiro, o Hospital e Maternidade São Francisco, em Niterói, se tornou o primeiro hospital privado fluminense a abrir estrutura e equipe para realizar cirurgias oncológicas em pacientes do SUS, com atendimento totalmente gratuito para a população.
A iniciativa já está em andamento: os atendimentos no hospital particular começaram ainda em dezembro, quando cinco mulheres passaram por avaliações e procedimentos pré-operatórios. E nesta segunda-feira, dia 5, elas foram encaminhadas para cirurgias ginecológicas voltadas à retirada ou ressecção de tumores — um passo essencial para evitar a evolução de lesões para câncer ou tratar casos já confirmados.
Procedimentos de alta complexidade e impacto direto nas filas
O hospital privado integra o programa garantindo ao SUS a realização de 204 procedimentos por ano, com previsão de cerca de 10 cirurgias por mês, totalizando mais de R$ 952 mil em atendimentos anuais. O foco está em áreas consideradas prioritárias pela política pública nacional: saúde da mulher e oncologia.
As cirurgias realizadas incluem procedimentos de alta complexidade e grande impacto clínico, como:
- Histerectomia (retirada do útero)
- Retirada de tumores e ressecções cirúrgicas
- Linfadenectomia (remoção de linfonodos na pelve)
- Peritonectomia (remoção de parte da membrana abdominal)
- Traquelectomia (remoção do colo do útero e tecidos associados)
Trata-se de intervenções que, na prática, costumam ter grande demanda reprimida, tanto pela limitação de salas cirúrgicas quanto pela escassez de estruturas especializadas em oncologia ginecológica no SUS em muitos municípios.
Como o hospital privado entra no programa sem custo direto ao SUS
O modelo utilizado pelo programa é um dos pontos mais inovadores: em vez de repasse tradicional de verba pública direta ao hospital, a unidade privada recebe créditos financeiros, que podem ser usados para quitar tributos federais vencidos ou a vencer.
Ou seja: o hospital presta atendimento ao SUS e recebe uma contrapartida fiscal, criando uma alternativa para ampliar acesso sem gerar novos custos imediatos dentro da lógica orçamentária tradicional. O objetivo é mobilizar toda a capacidade instalada do país — pública e privada — para aumentar a oferta de consultas, exames e cirurgias.
Regulação continua com estados e municípios
Mesmo com atendimento em hospital particular, o fluxo de acesso do paciente permanece dentro do sistema público. Os encaminhamentos são feitos por meio de regulação estadual ou municipal, que define prioridade e agenda conforme critérios clínicos e disponibilidade.
No caso do Rio de Janeiro, foi a Secretaria Estadual de Saúde que encaminhou as primeiras pacientes, seguindo os protocolos da central de regulação do estado. Isso reforça um ponto estratégico: o SUS não terceiriza a decisão clínica, mas amplia o espaço físico e operacional para acelerar os atendimentos.
O que muda para o paciente: diagnóstico e tratamento com tempo como prioridade
Um dos maiores ganhos em ações como essa é reduzir o tempo entre diagnóstico e cirurgia — especialmente em tumores ginecológicos, onde atrasos podem resultar em progressão da doença, aumento do risco cirúrgico e necessidade de tratamentos mais agressivos.
O programa cria uma lógica de resposta rápida: pacientes que aguardariam meses por uma cirurgia conseguem ser encaminhadas para unidades com estrutura pronta, equipe completa e capacidade imediata de execução.
Um alerta importante: quando o SUS ligar, é real
Com a ampliação da rede privada para atendimentos públicos, o programa exige também um esforço de comunicação com a população. Muitas pessoas, ao receberem uma ligação para realizar procedimento em hospital particular, podem desconfiar de golpe ou trote.
Por isso, o Ministério da Saúde reforça que, caso o paciente seja chamado para atendimento em hospital privado pelo programa, trata-se de uma convocação real, vinculada à regulação oficial do SUS.
Expansão no RJ e adesão de grandes grupos
Além do Hospital e Maternidade São Francisco, a iniciativa também ganhou escala com a adesão de grandes redes hospitalares. No estado do Rio, a Rede D’Or também aderiu ao programa e iniciou participação com duas unidades privadas:
- Glória D’Or, no Rio de Janeiro
- Niterói D’Or, em Niterói
Essas unidades atuarão principalmente na área cardiológica, com previsão de cerca de 100 cirurgias por ano para pacientes do SUS, movimentando aproximadamente R$ 3,6 milhões em atendimentos.
O que esse movimento representa para o SUS
O avanço do programa representa uma mudança de paradigma: pela primeira vez, hospitais privados passam a ser integrados de forma sistemática ao esforço nacional de reduzir filas cirúrgicas e ampliar acesso a procedimentos especializados, especialmente em oncologia e cardiologia.
Na prática, o país começa a operar um modelo mais híbrido, onde a prioridade deixa de ser exclusivamente “onde” o procedimento é feito, e passa a ser “quando” ele é feito — com foco em tempo, desfecho clínico e redução da espera.