Programa Nacional para as Hepatites Virais: Diretor Recomenda Ampliação de Testagem como Estratégia Central de Controle
Portugal Registra Aumento de 265% em Hepatite A e 31% em Hepatite B — Tratamento da Hepatite C Alcança Taxas de Cura Próximas a 97% em Mais de 38 Mil Pacientes
O diretor do Programa Nacional para as Hepatites Virais (PNHV), Rui Tato Marinho, recomendou a ampliação da testagem para hepatites virais como estratégia central de controle epidemiológico. Em entrevista à agência Lusa, no Dia Mundial das Hepatites, o especialista destacou que as hepatites e doenças hepáticas apresentam caráter assintomático, tornando o rastreio o instrumento-chave para identificação precoce e intervenção terapêutica.
Contexto Epidemiológico: Aumento Expressivo de Casos
O relatório de 2025 do PNHV da Direção-Geral da Saúde (DGS) documenta aumentos significativos:
- Hepatite A: 319 casos (2024) → 1.164 casos (2025) — aumento de 265%
- Hepatite B: 271 casos (2024) → 354 casos (2025) — aumento de 31%
- Hepatite C: alteração metodológica introduzida em 2024 pode justificar aumento de notificações
Hepatite A: Cenário de Baixa Endemicidade Com Surto Emergente
Apesar de Portugal ser considerado paÃs de baixa endemicidade para hepatite A, com valores anuais recorrentes inferiores a 1 caso confirmado por 100.000 habitantes, o aumento de 845 casos no último ano requer atenção epidemiológica.
Conforme afirmado por Rui Tato Marinho:
“Claro que quando um dado sai fora da normalidade é preocupante, mas em termos de saúde global, não será dos casos mais preocupantes porque a mortalidade é muito baixa e esta é uma doença que não deixa sequelas para toda a vida.”
O especialista destacou que as crises de hepatite A ocorrem em agregados familiares e grupos populacionais especÃficos, associadas a condições higiénicas deficientes.
Vacinação Contra Hepatite A: Instrumento de Controle
Embora a vacina contra hepatite A não esteja classicamente incluÃda no Programa Nacional de Vacinação, o número de doses administradas atingiu recorde histórico:
- Há 4-5 anos: 30 mil doses
- Atualmente: mais de 100 mil doses
Conforme afirmado: “Esta vacina é eficaz. É uma arma extremamente importante para controlar as crises.”
Estratégia de Testagem: Recomendação Central
A recomendação principal do diretor do PNHV é direta:
“A nossa mensagem é: façam os testes pelo menos uma vez na vida. Podem incluir a hepatite A, a B e a C, além da Delta que é mais rara. A maior parte destas doenças são assintomáticas, são silenciosas. Portanto, fazendo estes testes, chamados marcadores do vÃrus, que são análises muito simples, à s vezes até podem ser testes rápidos, a pessoa fica a saber se tem ou não, se teve ou não.”
A testagem deve incluir marcadores virais para:
- Hepatite A (HAV)
- Hepatite B (HBV)
- Hepatite C (HCV)
- Hepatite Delta (HDV) — mais rara, mas com impacto clÃnico significativo
Hepatite B: Vigilância e Populações Vulneráveis
O aumento de 31% nos casos de hepatite B reforça a necessidade de vigilância sustentada. Conforme afirmado:
“A vigilância nunca deve abrandar.”
Fatores adicionais a considerar:
- População migrante: indivÃduos provenientes de paÃses com maior prevalência de infecção crónica por HBV
- Vacinação: incluÃda no Programa Nacional de Vacinação há 20 anos
- Necessidade de testagem em populações vulneráveis
Hepatite C: Dez Anos de Acesso Universal ao Tratamento
O relatório destaca marco histórico: dez anos após o acesso universal ao tratamento da hepatite C em Portugal:
- Mais de 38 mil pessoas tiveram acesso ao tratamento
- Taxas de cura próximas a 97%
- Medicamentos gratuitos — “caso quase único no mundo”, conforme Rui Tato Marinho
O especialista reforça a importância de identificar pacientes que podem não ter tido acesso ao tratamento otimizado em seus paÃses de origem:
“A percentagem de hepatite C não será muito elevada, mas podem não ter tido acesso ao melhor tratamento nos seus paÃses e aqui poderemos ajudar.”
Notificação de Casos: Responsabilidade ClÃnica
Rui Tato Marinho emitiu alerta direto aos médicos:
“Também é importante chamar a atenção dos médicos porque devem notificar os casos que aparecem, até para tomar medidas de saúde pública.”
A notificação oportuna é elemento fundamental para:
- Vigilância epidemiológica
- Identificação de surtos
- Implementação de medidas de saúde pública
- Rastreamento de contactos
Doença Hepática: O Órgão Silencioso
O diretor do PNHV destacou a importância da atenção à saúde hepática:
“Doenças no fÃgado, um órgão que não dá sinal, mas sem ele não há vida.”
As hepatites virais continuam a representar importante causa de:
- Doença hepática crónica
- Cirrose
- Carcinoma hepatocelular
Os vÃrus das hepatites B e C são responsáveis pela maioria da mortalidade associada a doenças hepáticas.
Implicações Para a Prática ClÃnica
Para profissionais de saúde, as recomendações incluem:
- Testagem rotineira: solicitação de marcadores virais (HAV, HBV, HCV, HDV) pelo menos uma vez na vida adulta
- Vigilância em populações vulneráveis: atenção especial a população migrante de paÃses de maior prevalência
- Notificação obrigatória: registo de casos confirmados para vigilância epidemiológica
- Vacinação: verificação de status vacinal para hepatite A e B; consideração de vacinação em grupos de risco
- Encaminhamento terapêutico: identificação de pacientes com hepatite C para tratamento com antivirais de ação direta
- Abordagem familiar: investigação de contactos em casos de hepatite A e B
Conclusão
O aumento documentado de casos de hepatite A (265%) e B (31%) em Portugal reforça a necessidade de ampliação da testagem como estratégia central de controle. O sucesso do programa de tratamento da hepatite C, com taxas de cura próximas a 97% em mais de 38 mil pacientes, demonstra que instrumentos eficazes estão disponÃveis. A detecção precoce através de testagem rotineira de marcadores virais, combinada com vacinação e notificação adequada, constitui a base para o controle das hepatites virais e prevenção de doença hepática crónica.